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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

"Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível"

Voltou a circular na internet uma matéria do Diário de São Paulo, de 2003, a respeito do psicólogo que se passou por gari para fazer sua tese de mestrado. Para quem ainda não leu, vale à pena dar uma conferida.


23 de abril de 2003
"Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível"
Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da "invisibilidade pública". Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social
Plinio Delphino, Diário de São Paulo
O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são "seres invisíveis, sem nome".
Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da "invisibilidade pública", ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.
Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida: "Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência", explica o pesquisador.
O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. "Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão", diz.
Apesar do castigo do sol forte, do trabalho pesado e das humilhações diárias, segundo o psicólogo, são acolhedores com quem os enxerga. E encontram no silêncio a defesa contra quem os ignora.
Diário – Como é que você teve essa idéia?
Fernando Braga da Costa – Meu orientador desde a graduação, o professor José Moura Gonçalves Filho, sugeriu aos alunos, como uma das provas de avaliação, que a gente se engajasse numa tarefa proletária. Uma forma de atividade profissional que não exigisse qualificação técnica nem acadêmica. Então, basicamente, profissões das classes pobres.
Com que objetivo?
A função do meu mestrado era compreender e analisar a condição de trabalho deles (os garis), e a maneira como eles estão inseridos na cena pública. Ou seja, estudar a condição moral e psicológica a qual eles estão sujeitos dentro da sociedade. Outro nível de investigação, que vai ser priorizado agora no doutorado, é analisar e verificar as barreiras e as aberturas que se operam no encontro do psicólogo social com os garis. Que barreiras são essas, que aberturas são essas, e como se dá a aproximação?
Quando você começou a trabalhar, os garis notaram que se tratava de um estudante fazendo pesquisa?
Eu vesti um uniforme que era todo vermelho, boné, camisa e tal. Chegando lá eu tinha a expectativa de me apresentar como novo funcionário, recém-contratado pela USP pra varrer rua com eles. Mas os garis sacaram logo, entretanto nada me disseram. Existe uma coisa típica dos garis: são pessoas vindas do Nordeste, negros ou mulatos em geral. Eu sou branquelo, mas isso talvez não seja o diferencial, porque muitos garis ali são brancos também. Você tem uma série de fatores que são ainda mais determinantes, como a maneira de falarmos, o modo de a gente olhar ou de posicionar o nosso corpo, a maneira como gesticulamos. Os garis conseguem definir essa diferenças com algumas frases que são simplesmente formidáveis.
Dê um exemplo?
Nós estávamos varrendo e, em determinado momento, comecei a papear com um dos garis. De repente, ele viu um sujeito de 35 ou 40 anos de idade, subindo a rua a pé, muito bem arrumado com uma pastinha de couro na mão. O sujeito passou pela gente e não nos cumprimentou, o que é comum nessas situações. O gari, sem se referir claramente ao homem que acabara de passar, virou-se pra mim e começou a falar: "É Fernando, quando o sujeito vem andando você logo sabe se o cabra é do dinheiro ou não. Porque peão anda macio, quase não faz barulho. Já o pessoal da outra classe você só ouve o toc-toc dos passos. E quando a gente está esperando o trem logo percebe também: o peão fica todo encolhidinho olhando pra baixo. Eles não. Ficam com olhar só por cima de toda a peãozada, segurando a pastinha na mão".
Quanto tempo depois eles falaram sobre essa percepção de que você era diferente?
Isso não precisou nem ser comentado, porque os fatos no primeiro dia de trabalho já deixaram muito claro que eles sabiam que eu não era um gari. Fui tratado de uma forma completamente diferente. Os garis são carregados na caçamba da caminhonete junto com as ferramentas. É como se eles fossem ferramentas também. Eles não deixaram eu viajar na caçamba, quiseram que eu fosse na cabine. Tive de insistir muito para poder viajar com eles na caçamba. Chegando no lugar de trabalho, continuaram me tratando diferente. As vassouras eram todas muito velhas. A única vassoura nova já estava reservada para mim. Não me deixaram usar a pá e a enxada, porque era um serviço mais pesado. Eles fizeram questão de que eu trabalhasse só com a vassoura e, mesmo assim, num lugar mais limpinho, e isso tudo foi dando a dimensão de que os garis sabiam que eu não tinha a mesma origem socioeconômica deles.
Quer dizer que eles se diminuíram com a sua presença?
Não foi uma questão de se menosprezar, mas sim de me proteger.
Eles testaram você?
No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse: 'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi. Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.
O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?
Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.
E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?
Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando – professor meu – até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.
E quando você volta para casa, para seu mundo real?
Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma coisa.




Para ler a tese de mestrado de Fernando Braga da Costa, clique aqui

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Pinheirinho, Cracolândia e USP: em vez de política, polícia!

Texto publicado originalmente no Yahoo! Colunistas e retirado do Blog da Raquel Rolnik

23/01/12 por raquelrolnik

Domingo, 22 de janeiro de 2012, 6h da manhã, São José dos Campos (SP). Milhares de homens, mulheres, crianças e idosos moradores da ocupação Pinheirinho são surpreendidos por um cerco formado por helicópteros, carros blindados e mais de 1.800 homens armados da Polícia Militar. Além de terem sido interditadas as saídas da ocupação, foram cortados água, luz e telefone, e a ordem era que famílias se recolhessem para dar início ao processo de retirada. Determinados a resistir — já que a reintegração de posse havia sido suspensa na sexta feira  – os moradores não aceitaram o comando, dando início a uma situação  dramaticamente violenta  que se prolongou durante todo o dia e que teve como resultado famílias desabrigadas, pessoas feridas, detenções e rumores, inclusive, sobre a existência de mortos.
Nos últimos 08 anos, os moradores da ocupação lutam pela sua permanência na área. Ao longo desse tempo, eles buscaram firmar acordos com instâncias governamentais para que fosse promovida a regularização fundiária da comunidade, contando para isto com o fato de que o terreno tem uma dívida  milionária de IPTU com a prefeitura. O terreno pertence à massa falida da empresa Selecta, cujo proprietário é o especulador financeiro Naji Nahas, já investigado e temporariamente preso pela Polícia Federal na operação Satiagraha. No fim da semana, várias foram as idas e vindas judiciais favoráveis e contrárias à reintegração, assim como as tratativas entre governo federal, prefeitura, governo de Estado e parlamentares para encontrar uma saída pacífica para o conflito.Com o processo de negociação em curso e com posicionamentos contraditórios da Justiça, o governo do Estado decide armar uma operação de guerra para encerrar o assunto.

03 de janeiro de 2012, região da Luz,  centro de São Paulo. A Polícia da Militar inicia uma ação de “limpeza” na região denominada pela prefeitura como Cracolândia. Em 14 dias de ação, mais de 103 usuários de drogas e frequentadores da região foram presos pela polícia  com uso da cavalaria, spray de pimenta e muita truculência. Em seguida, mais de trinta prédios foram lacrados e alguns demolidos. Esta região é objeto de um projeto de “revitalização” por parte da prefeitura de São Paulo, que pretende concedê-la “limpinha” para a iniciativa privada construir torres de escritório e moradia e um teatro de ópera e dança no local. Moradores dos imóveis lacrados foram intimados a deixar a área mesmo sem ter para onde ir. Comerciantes que atuam no maior polo de eletroeletrônicos da América Latina, a Santa Efigênia , assim como os moradores que há décadas vivem ali, vêm tentando, desde 2010, bloquear a implantação deste projeto, já que este desconsidera absolutamente suas demandas.

08 de novembro de 2011, 05h10 da manhã, Cidade Universitária, São Paulo.Um policial aponta a arma para uma estudante de braços levantados, a tropa de choque entra no prédio e arromba portas (mesmo depois de a polícia já estar lá dentro), sem deixar ninguém mais entrar (nem a imprensa, diga-se de passagem), nem sair, tudo com muita truculência. Este foi o início do processo de desocupação da Reitoria da Universidade de São Paulo, ocupada por estudantes em protesto à presença da PM no Campus. Os estudantes são surpreendidos por um cerco formado pela tropa de choque e cavalaria, totalizando mais de 300 integrantes da Polícia Militar. Depois de horas de ação violenta, são retirados do prédio e levados presos mais de 73 estudantes. Camburão e helicópteros acompanham a ação.
O que estes três episódios recentes e lamentáveis têm em comum?
Os três eventos envolvem conflitos na gestão e ocupação do território. Os três são situações complexas, que demandariam um conjunto de políticas de curto, médio e longo prazo para serem enfrentados. Os três requerem um esforço enorme de mediação e negociação.
Entretanto, qual é a resposta para esta complexidade conflituosa? A violência, a supressão do diálogo, o acirramento do conflito.
Alguém poderia dizer — mas por quê os ocupantes do Pinheirinho resistiram? Por que não saíram imediatamente, evitando os feridos e as feridas da confrontação?
Porque sabem que, para quem foi “desocupado” ou” lacrado” nestas e outras reintegrações e “limpezas”, sobra a condição de sem-teto. Ou seja, para quem promoveu a reintegração ou a limpeza, o fundamental é ter o local vazio, e não o destino de quem estava lá, muitos menos as razões que levaram aquelas pessoas a estar lá naquela condição e seu enfrentamento e resolução. “Resolver” a questão é simplesmente fazer desaparecer o “problema” da paisagem.
Mais grave ainda, nestas situações a suposta “ilegalidade” ( ocupação de terra/uso de drogas) é motivo suficiente para promover todo e qualquer  tipo de violação de leis e direitos em nome da ordem, em um retrocesso vergonhoso dos avanços da democracia no país.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Churrascão da cracolândia

Matéria retirada da página carosamigos.terra.com.br (acesse a fonte aqui)

Fotos: Jesus Carlos
Churrasco-Cracolândia-iNo sábado (14), mais de mil pessoas passaram pelas ruas Helvétia e Dino Bueno, na Luz, região central de São Paulo. Nesse cruzamento é localizada a região conhecida como “Cracolândia”, que atualmente vem passando por um processo de repressão policial e limpeza étnica. Por isso, diversos movimentos sociais organizaram o “Churrascão na Luz”, com o objetivo de divulgar a repressão enfrentada pelos frequentadores e moradores da região (veja mais fotos ao final do texto e no link abaixo).
Mais:
Veja fotos do Churrascão da Cracolândia
Às 14 horas, os organizados já debatiam com os moradores detalhes do churrasco. Logo as churrasqueiras estavam acessas e mais pessoas chegavam. Cartazes e faixas foram pendurados nas paredes e em grades, colorindo o ambiente. Uma delas dizia: “A especulação imobiliária é dependente da violência policial”. Mais tarde, os manifestantes promoveram oficinas de Kraft socializando as tintas com os moradores, que deixaram sua mensagem: “não sou tão ruim como você pensa, nem tão pior como você deseja”.Churrasco-Cracolândia-i2
Não demorou muito para que a carne fosse servida, acompanhada da cervejinha que podia ser comprada nos bares vizinhos. Uma roda de samba improvisada dava o tom para o evento. Entre os sambas clássicos, uma ou outra palavra de ordem, “o povo não se ilude, não é a polícia que vai trazer saúde”, gritavam. Além disso, ocorriam as manifestações individuais, “abaixo a ditadura do Kassab”, esbravejava uma moradora.
Nem chuva atrapalha
Nem as pancadas de chuva foram suficientes para desmobilizar o churrasco, enquanto alguns abriam seus guardachuvas, a maioria das pessoas procurava abrigos no bar. Quando a água parou de cair e o sol voltou a brilhar, os manifestantes improvisaram um varal para secar suas roupas. Nesse momento, todos puderam contemplar um arco íris que aparecia por entre os prédios.
Churrasco-Cracolândia-i3Durante todo o evento o ambiente se manteve pacífico, policiais militares cercavam o local e circulavam entre os manifestantes, mas sem abusos. Em cima da van da PM, um policial carregava uma filmadora e pegava a identificação facial de todos os participantes. Apesar da tranquilidade no local, moradores da região denunciaram abusos no entorno, onde os policiais revistavam os moradores e os impediam de chegar ao churrasco.
Os manifestantes ficaram até o começo da noite, trocando ideia com os moradores. Assim como o churrasco, os movimentos sociais preparam um grande ato no dia 25 e um debate sobre criminalização da pobreza para o fim de janeiro.
Para conhecer mais sobre as reivindicações do movimento leia o manifesto abaixo:
"Manifesto – Chega de dor e sofrimento na Luz
Desde o dia 3 de janeiro, a região da Luz no centro de São Paulo, conhecida como “cracolândia”, vem sendo palco de uma ostensiva ocupação militar com quase 300 PMs, dos quais 152 são da Rota (tropa de elite), 12 bombeiros, helicóptero, 117 carros, 26 motos, 12 cães farejadores e 40 cavalos. O aparato de guerra tem abertamente o intuito de reprimir uma população pobre, em parte consumidora de crack, majoritariamente formada por moradores de rua ou pessoas em situação de rua.Churrasco-Cracolândia-i4
A “guerra às drogas”, ou nesse caso mais especificamente a “guerra ao crack” – como se fosse possível guerrear contra uma substância e não contra pessoas – tem servido como pretexto para os governos estadual de Geraldo Alckmin (PSDB) e municipal de Gilberto Kassab (PSD) implementarem o processo violento de higienização e criminalização da pobreza. A denominada Ação Integrada Centro Legal, ou “Operação Sufoco”, orquestrada pela prefeitura com o governo do estado, já conta com inúmeras denúncias de abuso de autoridade, racismo, violação de direitos humanos e tortura, e infelizmente ainda não foi questionada com veemência pelo governo federal.
Se a operação militar por si só já é motivo para rechaço e indignação, por militarizar seletivamente questões sociais e de saúde, os interesses por trás de sua sustentação são capazes de piorar ainda mais o quadro. Pouco importa o que será dos que ali vivem ou frequentam. Se existisse essa preocupação a abordagem não só não seria policial e violenta, mas por meio de assistentes sociais e agentes de saúde, como não poderia trazer como resultado a total dispersão daqueles a quem supostamente se quereria alcançar. Se as autoridades afirmam que o crack é questão de saúde pública, a prática evidencia o contrário. Se publicamente alegam que a ação é para combater o tráfico, fica visível que a repressão está voltada para o usuário, atingindo no máximo o que se chama de “peixe pequeno” (vide a apreensão de apenas meio quilo de crack), aquele que em grande maioria recorre ao comércio ilegal para sustentar seu próprio consumo, e está longe do estereótipo perigoso que a polícia usa para justificar sua violência.
Churrasco-Cracolândia-i5A política de causar “dor e sofrimento”, nas palavras do próprio coordenador de Políticas sobre Drogas do governo, Luiz Alberto Chaves de Oliveira, tem o claro objetivo de “limpar” aquelas pessoas dali de modo a abrir espaço para a implementação do projeto Nova Luz, que prevê a demolição de um terço das construções da região para a reconstrução e valorização do espaço com vistas ao lucro da especulação imobiliária – financiadora esta dos políticos que ocupam o poder.
A internação compulsória – dispositivo no qual pessoas em condição de consumo de crack são internadas à força sob ordem judicial em clínicas sem a menor regulamentação ou qualidade – tampouco tem como objetivo o cuidado com as pessoas, já que pesquisas patrocinadas pela ONU como apresentou o PROAD (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes) indicam que a eficácia de internações contra a vontade é de apenas 2%. Legitimadas pela demonização do crack e por um imaginário social mais baseado em medo do que em informações (estimuladas pela grande mídia e pelos discursos de nossos políticos), medidas de terrorismo de Estado como essa vêm se tornando mais frequentes, não por acaso à medida em que se aproximam a Copa do Mundo e as Olimpíadas no Brasil.
O crack na região da Luz aparece como o sintoma de um problema infinitamente maior. O consumo abusivo desta droga nestes contextos não é a causa, mas sim a consequência de falta de moradia, emprego, saúde, educação, enfim, condições dignas de vida às quais todos temos direito.
Nesse sentido, nos articulamos no intuito de denunciar e enfrentar a ação militar impetrada por nossos governantes e reivindicar condições dignas a todos aqueles que estão marginalizados de seus direitos mínimos. No caso do uso problemático do crack ou qualquer outra droga, defendemos um tratamento de saúde que tenha como base a autonomia e o respeito ao indivíduo, com o fortalecimento e ampliação da rede inter-setorial de atenção psicossocial.
Janeiro de 2012.
Assinam:
Ação dos Cristãos para a Abolição da Tortura (ACAT-Brasil), Ação e Cidadania Planeta 21, Amparar – Associação de Amigos e Familiares de Presos, Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasmesp), Associação de Moradores e amigos da Santa Ifgênia e Luz (AMOALUZ), Associação Pró Falsêmicos (Aprofe), Associação Sem Teto da cidade de São Paulo (ASTC-SP), Avoa núcleo artístico, Barricadas Abrem Caminhos, Bloco do Saci do Bixiga, Campo Debate Socialista, Cedeca Interlagos, Central de Movimentos Populares (CMP), Centro de Convivência É de Lei, Centro Franciscano Chá do Padre (Sefras), Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, Ciranda Internacional de Comunicação Compartilhada, Circulo Palmarino, Coletivo Desentorpecendo A Razão (DAR), Comitê para a Democratização da Informática – SP, Comitê Paulista pela Memória, Verdade e Justiça, Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CONDEPE-SP), Conselho Regional de Psicologia (CRP) de São Paulo, Conselho Regional de Serviço Social do Estado de São Paulo, Contraponto, Espaço Cultural Latino-americano (ECLA), Folias D´ Arte – Grupo de teatro, Fórum Popular de Saúde Mental da Região do ABCDMRR, Forum Regional de Defesa do Direito da Criança e do Adolescente – Sé, Frente Estadual Antimanicomial de São Paulo, Fórum Centro Vivo, Fórum de Juventudes RJ, Forum Regional de Defesa do Direito da Criança e do Adolescente – Sé, Frente de Luta por Moradia (FLM), Grupo de Estudos Pandiá Calógeras (GEPC), Grupo de Luta pela Diversidade Sexual, Instituto Cultural Lyndolpho Silva (ICLS), Instituto Práxis de Direitos Humanos, Juventude Libre, Mandato Deputado Estadual Adriano Diogo (PT), Mandato Deputado Estadual Carlos Giannazi (PSOL), Mandato Deputado Federal Ivan Valente (PSOL), Mandato Vereador Ítalo Cardoso (PT), Mandato Vereadora Juliana Cardoso (PT), Marcha da Maconha – SP, Marcha da Maconha – Recife, Marcha Mundial das Mulheres, Militância em Ambientes Virtuais do PT – (MAVPTSP), Movimento Água Branca, Movimento de Moradia da Região Central – MMRC, Movimento dos Sem Juízo, Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), Movimento Nacional de Luta Antimanicomial, Movimento Negro Unificado – MNU, Movimento Passe Livre – MPL-SP, Movimento Sem Teto do Centro (MSTC), NEILS (Núcleo de Estudos de Ideologias e Lutas Sociais (PUC), Núcleo de Direito à Cidade da Faculdade de Direito da USP, Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP), Ocupa Sampa, Partido Comunista Brasileiro – PCB, Promotora Legal Popular, PSOL-SP, Rede de Juventudes de Favela – RJ, Setorial de Direitos Humanos do PSOL, Sindicato dos Guardas Civis de São Paulo – Sindguardas, Sindicato dos Trabalhadores da Saude do Estado de São Paulo – SindSAÚDE, Tribunal Popular – O Estado no banco dos réus, UneAfro, União de Movimentos de Moradia – UMM-SP, Unidos Pra Lutar!."

sábado, 14 de janeiro de 2012

"Nada a ver com as UPPs"

Artigo retirado do site vermelho.org.br

Pedro Abramovay: "Nada a ver com as UPPs"


A Polícia Militar ocupou a cracolândia. Ocupou? Por que o uso desse termo militar? Há dois possíveis motivos para isso.

Por Pedro Abramovay*


Políticos raramente fogem à tentação de utilizar metáforas bélicas quando estão se referindo às drogas. Sempre pode sobrar algum dividendo político de se dizer parte de uma "guerra às drogas".

Vários líderes mundiais se reuniram recentemente para apontar que a lógica de guerra fracassou. É hora de produzir políticas mais inteligentes, que causem menos danos à sociedade. Infelizmente, muitos insistem em não perceber isso.

O segundo motivo, que me parece o principal neste caso, é uma tentativa de aproveitar o impacto positivo das ocupações em favelas cariocas e tentar colar nessa imagem.

Mas é preciso perceber que a lógica por trás das UPPs é diametralmente oposta à lógica da ocupação da cracolândia. Os problemas são radicalmente diferentes e merecem soluções distintas.

As UPPs vêm para enfrentar um problema de segurança pública: uma ocupação militarizada dos morros cariocas por organizações criminosas. Essa ocupação produzia violência e atingia frontalmente a liberdade dos moradores. O êxito dessa iniciativa veio quando o secretário de Segurança disse claramente que aquela não era uma operação para erradicar as drogas. O objetivo era diminuir a violência e recuperar o espaço das favelas para a cidade.

Esse foco preciso produziu uma política que tem combinado ações policiais com ações sociais. Com os percalços naturais de uma política pública tão complexa, ela está atingido o seu objetivo.

Mas, no caso da cracolândia, em São Paulo, o problema não é de segurança pública.

É um problema de saúde pública, agravado pela profunda exclusão social dos usuários de crack. Utilizar a polícia para tratar uma questão que não é de segurança pública tem poucas chances de sucesso. Em todas as experiências internacionais bem-sucedidas de promoção da saúde para usuários de drogas, o afastamento da polícia permitiu uma abordagem mais profunda por parte de profissionais da saúde e de assistência social.

O exemplo mais proeminente foi o de Portugal. Dez anos após a descriminalização do porte de pequenas quantidades, o país conseguiu, sem aumentar o consumo, aumentar de forma expressiva o acesso à saúde dos usuários.

No caso da cracolândia, é evidente que a presença da polícia reduz as chances de uma política de acesso à saúde.

Mesmo a ideia inicialmente apresentada, de que a polícia pode acabar com o tráfico na região, foi já desmentida pelo comandante da Polícia Militar na região central. Ele afirmou ser "utopia" dizer que é possível atingir tal feito.

Até porque essa separação tão clara entre o traficante e o usuário não é real. Uma parte significativa dos usuários de crack, em algum momento, já venderam a droga para sustentar o seu vício. Mas, mesmo nesses casos, a abordagem policial não resolve o problema. Apenas esconde.

A solução para a cracolândia não passa por viaturas e revólveres. Ela passa por consultórios móveis, com profissionais bem capacitados para dar atendimento aos usuários. Passa também por uma política consistente de assistência social para os moradores de rua.

Querer exportar o modelo carioca para a cracolândia é usar uma estratégia de segurança pública para lidar com um problema de saúde. É tão eficiente quanto utilizar metralhadoras para acabar com mosquitos da dengue.

*Pedro Abramovay, 31, é professor da Escola de Direito da FGV do Rio de Janeiro e coordenador do site www.bancodeinjusticas.org.br; foi secretário nacional de Justiça (2010)

Fonte: Folha

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Fórum Estadual de População de Rua discute ações para 2012

Notícia retirada do site do vereador Reimont

11/01/2012
 
Após as festas de fim de ano, onde foi celebrado o Natal com a presidenta Dilma em São Paulo, o Fórum Estadual de População de Rua retomou os trabalhos e marcou metas para 2012, com a presença do mandato do vereador Reimont. De acordo com Hilda Corrêa, integrante do Fórum, apesar da importância da participação do governo federal no evento, pouco discutiu-se sobre políticas para o setor. Em contrapartida, em março, a cidade de Salvador receberá o I Congresso Nacional de População de Rua, entre os dias 22 e 24.
Os presentes ressaltaram a necessidade da celeridade do poder público devido à vulnerabilidade enfrentada por essa parcela da sociedade. Foram lembrados também os casos de agressão e assassinato de moradores de rua em 2011. Outra dificuldade é o cotidiano pós-tratamento.
- Por mais que o morador de rua esteja reabilitado, reintegrado, apto ao trabalho, ele não recebe um valor financeiro significativo. Com isso, muitas vezes não consegue alugar uma moradia digna, afinal, ele precisa suprir outras necessidades básicas, como alimentação e vestuário. Há muito ainda a ser feito para que eles tenham totais condições – comentou Irmã Elci, da Casa de Betânia.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Atendimento Jurídico à população em situação de rua e albergados

A Defensoria Pública do Estado e a Defensoria Pública da União disponibiliza atendimento jurídico à população em situação de rua e albergados da cidade de São Paulo.

LOCAL: SEFRAS – RUA RIACHUELO N. 268. CENTRO, SÃO PAULO - SP.
TODA 3ª E 5ª FEIRA – DAS 8:00 ÀS 12:00 HORAS

Mais informações em http://www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/Repositorio/31/Documentos/folder.pdf